sábado, 17 de maio de 2014

Clarice Lispector, a mulher de coração selvagem




O texto destinava-se à revista "Tabacaria" da Casa Fernando Pessoa, correspondendo a ter posto em ordem uma palestra que ali proferi sobre "Livros Difíeceis". Vicissitudes fazem com que a revista esteja suspensa. A minha ânsia de dar conta do que estudei essa é imparável. Por isso aqui está, depois de uma longa e impaciente espera.



«(…) que exigissem dele artigos sobre Spinoza, mas que não fosse obrigado a advogar, a olhar e a lidar com aquelas pessoas afrontosamente humanas, desfilando, expondo-se sem vergonha» [121]



A propósito de livros difíceis pediram-me que falasse, aqui na Casa Fernando Pessoa, de Clarice Lispector e escolhesse um livro seu, um livro difícil. E escolhi não o denso A Maçã no Escuro, sua primeira obra, nem o enigmático O Ovo e a Galinha, sim Perto do Coração Selvagem, obra que, depois do seu êxito inicial fulgurante, a atirou para o vazio de tanta dificuldade em encontrar editor, passando pela humilhação de sucessivas recusas e adiamentos quanto ao seu livro seguinte.

Começou a escrevê-lo em 1942, reclusa deliberada numa modesta pensão para encontrar aí, na solidão e austeridade, o ambiente propício à criação, rabiscando-o, já alma doente sem o saber, num caderno de notas, «tacteando no escuro», como diria, terminando-o no tempo de gestação de uma criança «enquanto estudava, trabalhava, noivava».

Estudava Direito, curso que nunca transformaria em profissão, mas a que levou a escrever um dos mais lúcidos textos, mau grado breve, mas breve é também a obra do marquês De Beccaria, que claramente tomou como referência ao escrever a sua tese sobre o poder de punir.

E até aí, nessa jovem universitária se sentia já a irrequietude de alma que a marcaria pela vida e a diferenciava. Porque, ao contrário do que seria natural e escolarmente defensivo nesta matéria, não escreveu sobre o “direito” de punir, fórmula que legitima o Estado no exercício da repressão, mas sim sobre – diria – o mero “poder” de punir. 

A primeira frase desse texto notável é, aliás, logo uma denúncia e um programa de Justiça Criminal: «não há direito de punir. Há apenas o poder de punir. O homem é punido pelo seu crime porque o Estado é mais forte que ele, a guerra, grande crime, não é punida porque se cima dum homem há os homens acima dos homens nada há».

À data, Clarice trabalhava então no jornal A Noite, como jornalista, profissão que lhe marcaria para sempre a vida, pelo que torna a escrita acto de maleabilidade e geometria variável, e pelo fruto das realidades humanas que proporciona encontrar.

Publicada a primeira obra, em menos de um mês deixa o Rio de Janeiro, acompanhando seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, colega de curso, não regressando ao Brasil se não vinte anos depois. 

Expatriada, perde o contacto com o húmus que lhe ditou a génese literária. Passou, entretanto, por Lisboa, onde chega a 2 de Agosto de 1944. Encontra-se aqui com Maria Archer, Natércia Freire, João Gaspar Simões. E aborrece-se. «Lisboa deve ser horrível para se viver e trabalhar», escreveria ela numa carta citada pelo seu biógrafo Benjamim Moser [Clarice, 209]. Não é lisonjeiro sabê-lo, mas é a sua verdade sentimental.

É aqui, neste cosmopolitismo forçado em que a reclusão interior é liberdade, lobo na estepe, que nasce a natureza universal do seu modo de escrever. Ao contrário da Literatura brasileira tradicional, que tem marca do solo, do clima e das gentes em cada linha dos seus livros, a escrita de Clarice poderia ter surgido em qualquer parte do globo onde o Homem se encontrasse com a essência da sua existência e ousasse perguntar-se. 


Eis, pois, o livro que escolhi, que mereceria em 1944 o prémio Gonçalo Aranha, por ter sido considerado o melhor romance do ano.

[continua aqui.]

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