sábado, 12 de dezembro de 2015

Vida Secreta


A revista Vida Secreta (edição on line) divulga a terceira edição dedicada a Clarice Lispector. Pode ler-se aqui. Quem conhece a obra e a biografia pergunta-se se o que há de público na sua vida não é apenas a aparência por vezes superficial de uma secreta vida interior, de um mundo oculto, complexo, de que a intimidade é apenas a natural reserva e que a ânsia e devassa  não deve trespassar, pois ser-lhe-ia incompreensível.

domingo, 10 de agosto de 2014

Há setenta anos, em Lisboa


Devo ao notável blog Malomil a carinhosa lembrança: há setenta anos que Clarice Lispector esteve em Portugal. Tinha lido, até por causa da minha intervenção sobre a sua escrita que há meses tive na Casa de Fernando Pessoa e cujo texto arquivei neste blog, excertos das notas que deixou sobre essa passagem por Lisboa. 
Nunca tinha, porém, sentido, na forma da sua irrequieta caligrafia, a presença sentimental ainda que na superficialidade do que lhe foi dado viver. Não é grandiloquente para nós, até porque é incompleto [ver tudo aqui]
«Uma das melhores coisas interiores é sentir que hoje ainda não é amanhã, que amanhã fatalmente virá, mas que hoje é inteiramente hoje», escreveu. Nisso se resume o essencial.

sábado, 17 de maio de 2014

Clarice Lispector, a mulher de coração selvagem




O texto destinava-se à revista "Tabacaria" da Casa Fernando Pessoa, correspondendo a ter posto em ordem uma palestra que ali proferi sobre "Livros Difíeceis". Vicissitudes fazem com que a revista esteja suspensa. A minha ânsia de dar conta do que estudei essa é imparável. Por isso aqui está, depois de uma longa e impaciente espera.



«(…) que exigissem dele artigos sobre Spinoza, mas que não fosse obrigado a advogar, a olhar e a lidar com aquelas pessoas afrontosamente humanas, desfilando, expondo-se sem vergonha» [121]



A propósito de livros difíceis pediram-me que falasse, aqui na Casa Fernando Pessoa, de Clarice Lispector e escolhesse um livro seu, um livro difícil. E escolhi não o denso A Maçã no Escuro, sua primeira obra, nem o enigmático O Ovo e a Galinha, sim Perto do Coração Selvagem, obra que, depois do seu êxito inicial fulgurante, a atirou para o vazio de tanta dificuldade em encontrar editor, passando pela humilhação de sucessivas recusas e adiamentos quanto ao seu livro seguinte.

Começou a escrevê-lo em 1942, reclusa deliberada numa modesta pensão para encontrar aí, na solidão e austeridade, o ambiente propício à criação, rabiscando-o, já alma doente sem o saber, num caderno de notas, «tacteando no escuro», como diria, terminando-o no tempo de gestação de uma criança «enquanto estudava, trabalhava, noivava».

Estudava Direito, curso que nunca transformaria em profissão, mas a que levou a escrever um dos mais lúcidos textos, mau grado breve, mas breve é também a obra do marquês De Beccaria, que claramente tomou como referência ao escrever a sua tese sobre o poder de punir.

E até aí, nessa jovem universitária se sentia já a irrequietude de alma que a marcaria pela vida e a diferenciava. Porque, ao contrário do que seria natural e escolarmente defensivo nesta matéria, não escreveu sobre o “direito” de punir, fórmula que legitima o Estado no exercício da repressão, mas sim sobre – diria – o mero “poder” de punir. 

A primeira frase desse texto notável é, aliás, logo uma denúncia e um programa de Justiça Criminal: «não há direito de punir. Há apenas o poder de punir. O homem é punido pelo seu crime porque o Estado é mais forte que ele, a guerra, grande crime, não é punida porque se cima dum homem há os homens acima dos homens nada há».

À data, Clarice trabalhava então no jornal A Noite, como jornalista, profissão que lhe marcaria para sempre a vida, pelo que torna a escrita acto de maleabilidade e geometria variável, e pelo fruto das realidades humanas que proporciona encontrar.

Publicada a primeira obra, em menos de um mês deixa o Rio de Janeiro, acompanhando seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, colega de curso, não regressando ao Brasil se não vinte anos depois. 

Expatriada, perde o contacto com o húmus que lhe ditou a génese literária. Passou, entretanto, por Lisboa, onde chega a 2 de Agosto de 1944. Encontra-se aqui com Maria Archer, Natércia Freire, João Gaspar Simões. E aborrece-se. «Lisboa deve ser horrível para se viver e trabalhar», escreveria ela numa carta citada pelo seu biógrafo Benjamim Moser [Clarice, 209]. Não é lisonjeiro sabê-lo, mas é a sua verdade sentimental.

É aqui, neste cosmopolitismo forçado em que a reclusão interior é liberdade, lobo na estepe, que nasce a natureza universal do seu modo de escrever. Ao contrário da Literatura brasileira tradicional, que tem marca do solo, do clima e das gentes em cada linha dos seus livros, a escrita de Clarice poderia ter surgido em qualquer parte do globo onde o Homem se encontrasse com a essência da sua existência e ousasse perguntar-se. 


Eis, pois, o livro que escolhi, que mereceria em 1944 o prémio Gonçalo Aranha, por ter sido considerado o melhor romance do ano.

[continua aqui.]

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Clarice e Pablo


«Mas sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa», escreveu Clarice Lispector a preambular a entrevista que efectuou a Pablo Neruda, a 19 de Abril de 1966. O texto integral, que foi publicado pela Rocco no Livro De Corpo Inteiro, pode ler-se aqui. Chega-me graças à gentileza de Ana Maria Coelho.
Seno verdadeiro fica muito aquém do entrevistado e da entrevistadora. Mas aconteceu, e no Mundo nem tudo é exacto e, menos ainda, perfeito.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O oculto no que se expõe


Fui hoje ver à Fundação Calouste Gulbenkian a exposição sobre Clarice Lispector.
Que pode dizer quem dedica um blog, como é este, à sua escrita e à de sua irmã, Elisa? Que tudo quanto possa contribuir para a divulgação da obra de ambas é meritório. No caso apenas para a obra da primeira.
Há, porém, um senão que se compreende na sua integralidade seguindo as redes sociais. É que de um pensamento profundo, uma escrita densa, um ser complexo, estão disseminar-se pelo espaço da net frases citáveis. Frases lindinhas, tristinhas, poéticas, mas frases. 
Claro que algumas contêm ideias, interessantes, sensíveis e originais. Mas são frases, excertos, rasgões ao tecido onde se encontrava, arrancadas aos locais onde faziam sentido e porque só aí tinham sentido.
No mundo do corta e cola é o que há, toma-se a parte pelo todo. É a superficialidade feita mostra.
E a exposição que eu vi hoje é essencialmente isso, mais um vídeo já muito difundido no youtube, o da sua última entrevista para TV.
Compreendo que uma exposição sobre uma escritora não é um tratado de Literatura. Mas não deve ser tão pouco.
Sublinho o interessantíssimo design de que as imensas paredes em gavetas são símbolo. Quadra, como metáfora, ao seu tipo de escrita. Permite, abrindo uma ou outra, das que se podem abrir, surpreender o enigma de um documento, um excerto de carta, fotografias. A penumbra e a ténue luminosidade faz um certo ambiente.
O essencial falta, porém. Quem compreende, por exemplo, a barata esmagada que, na sua repelência, ganha prevalência como uma das imagens do conjunto, ou o ovo, acantonado e quase impercepítvel, a menção a plantas a animais? Quem surpreende nisso a teologia herética de Spinoza? Quem descortina o oculto e o sagrado, a cosmologia fracturante em que assenta a sua filosofia? Quem entende no ínfimo o infinito?
O que se esconde quando se exibe? O que se perde quando se cita com o limite do fim de citação?

sábado, 12 de janeiro de 2013

A dualidade do um

«O mito é o nada que é tudo», escreveu o nosso Fernando Pessoa. E no caso o mito de que o estrelato de Clarice Lispector, ofuscando a discrição de Elisa, sua irmã, poderia ter lançado um ambiente de relação difícil entre ambas ganhou força de mito. O que li mostrou que não tinha de ser assim, o que é meio caminho para não ter sido assim. No encontro que hoje sucede no Rio de Janeiro o tema estará em debate, pela palavra de Jeferson Masson. Informa-o o jornal O Globo, sei-o pelo amigo Ernane Catroli. Pode ler-se aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

Quando a língua não separa

 
Em francês, numa livraria dedicada à Bretanha, Clarice e Elisa têm voz. É um sentimento de universalidade, diria comovente. O responsável pelo espaço escreveu-me porque soube desta comunhão de afectos que a língua não separa. A ler aqui.

sábado, 11 de agosto de 2012

Os sobreviventes

Chegou, enfim, extraviado o primeiro envio, mas não há amizade que não vença o desalinho postal. Esperava-o, ansioso. Li-o quase na íntegra esta noite. São os Retratos Antigos de Elisa Lispector. Como é possível transmutar a realidade morta de um álbum de fotografias numa quase ficção, como se a flagrância de o desfolhar restituísse alma e vida àqueles idos? Eis, como o assinala a apresentadora da obra, Nádia Gotlib, a natureza deste escrito «teatralização desse espectáculo do "ver" e do "rememorar"».
Por ali se conhece a história de uma família ucraniana exilada no Brasil. História que não conheceríamos pelos escritos de Clarice, omissos em muitas facetas, uma delas a condição judia da família, pouco expressiva quanto à sua condição de emigrantes. História que já se reconstituía por aquele que foi o segundo romance de Elisa intitulado No Exílio.
Que me seja permitido de todas essas vidas convocar a de seu pai, Pinkas [Pedro] Lispector. Vida patética, devotada ao culto do dever, enclausurada pela devoção e pela contenção da dignidade. Dado. Há vidas assim, sacrificiais.
História de perseguição, sujeito aos progrons, de luta pelo amanhã, emigrados para longe de uma Pátria que não lhes sobreviveu, de modéstia e privação, história de religiosidade e empenhamento pela construção do Lar Nacional. História condenada a não ter história. A Lei, em que acreditava, quis que assim fosse. Consciente dos dotes literários da filha, não inferiores - afirmo - aos de Clarice, sumamente menos divulgados, ouviu-se-lhe, após um profundo e como se hesitante silêncio «vou-lhe sugerir um tema. Escreva sobre um homem que se perdeu». A sua biografia, afinal. Morreu aos cinquenta e cinco anos, após o primeiro tempo em que, enfim, gozou umas férias que já nem seriam reparadoras.
Elisa Lispector deixou-nos, sozinha, sem companhia nem descendentes. Sua irmã Tânia guardou o espólio de que saiu este livro. Ele é a história do seu presente contada para o futuro num tempo passado.
Ilustro este escrito com um quadro de Lasar Segall, pintor que diz em tela o que se colhe do que Elisa nos comunicou pelas letras. Tudo com um abraço de gratidão a Ernani Catroli, amigo, que me fez chegar o livro, sabendo do meu desejo por ele.

sábado, 14 de julho de 2012

Retratos Antigos

O livro chegar-mé-à em breve do Brasil. São retratos antigos de Elisa, a esquecida irmã de Clarice. Nadia Gotlib organizou. Teresa Montero, biógrafa da famosa irmã, apresentava nesta edição do jornal brasileiro O Globo. Tudo aqui.

terça-feira, 27 de março de 2012

O paradoxal

Recomeçar a ler nunca tendo deixado de ler é como sentir a respiração quando afinal se respira sempre quando nem se dá por isso. Foi ontem à noite, com o livro de contos Sangue no Sol, de Elisa Lispector. De novo devolvido à sua escrita estranha, ao seu inesperado modo de dizer, «o inconstante e o inconsistente sempre de mãos dadas com o paradoxal».
Descobri Elisa depois de Clarice. Esta escondeu-a, notória. Seus livros estão praticamente esgotados. «E assim os dias iam-se emendando nas noites, e estas naqueles», como sucedeu quando chegou a madrugada. Li pouco, lendo muito.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Figuras da Escrita

Eu ignorante me confesso. Devo ao Duarte Fonseca esta menção: «Como chegar àquilo a que as palavras mal podem dar expressão? O enigma que (des)norteia a obra de Clarice Lispector (1920-1977) foi levantado pelo professor e crítico português Carlos Mendes de Sousa ao mergulhar nas profundezas da escritora. Sousa é autor de "Clarice Lispector - Figuras da Escrita", que saiu em 2000, com uma tiragem de 500 exemplares, pela editora da Universidade do Minho, em Portugal, tornou-se objeto de culto entre claricianos e só agora chega ao Brasil, editado pelo IMS (Instituto Moreira Salles)». A notícia está aqui. Fui tentar ver o conteúdo, aqui e sobre a o autor aqui. E calo-me, de contrição, por ignorar tanto o que é nosso.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Manuscrito inédito de Clarice Lispector

Graças à gentileza de Graça Ribeiro, prezada amiga literária de além-mar chegam-se este texto de Pedro Corrêa do Lago, que transcrevo na íntegra:

«Fora os papéis guardados no arquivo de sua família, os manuscritos de Clarice Lispector são muito raros em coleções privadas. Com a fama cada vez maior da escritora e o número crescente de admiradores no exterior existe inclusive uma grande procura por seus documentos de parte de universidades, e Instituições, e colecionadores estrangeiros.
A página manuscrita aqui reproduzida contém uma frase belíssima que não chegou à versão publicada de A Hora da Estrela e que menciona Macabéa, talvez uma de suas personagens mais famosas. São apenas três frases: “Macabéa não sabia como se defender da vida numa grande cidade. Ela que tinha um sonho impossível: o de um dia possuir uma árvore. Que árvore, que nada: não havia nem grama sob os seus pés”.
No final de sua vida Clarice andava anotando coisas em pedacinhos de papel, cheques, guardanapos e até mesmo maços de cigarros. Uma de suas secretárias vivia guardando os pedaços no envelope, e nesta página manuscrita aparece uma menção em outra letra para identificar o fragmento – provavelmente na caligrafia de sua enfermeira/assistente Siléa Marchi: “(Macabéa quando vem para o Rio)”. Clarice sofrera muito com as sequelas do incêndio que quase lhe custara a mão com que escrevia. Nos últimos anos estava bastante fraca, e o ferimento na mão também explica a letra pouco legível.
Sua editora principal era sua grande amiga Olga Borelli, que ajudou Clarice a organizar suas últimas grandes obras-primas como Água Viva, A Hora da Estrela, assim como o póstumo Sopro de Vida. A recente biografia de Clarice por Benjamin Moser cita Olga Borelli comentando o método editorial da grande escritora:
 
“Respirar junto, é respirar junto ... Porque existe uma lógica na vida, nos acontecimentos, como existe num livro. Eles se sucedem, é tão fatal que seja assim. Porque se eu pegasse um fragmento e quisesse colocar mais adiante, eu não encontraria onde colocar. É como um quebra-cabeça. Eu pegava os fragmentos todos e ia juntando, guardava tudo num envelope. Era um pedaço de cheque, era um papel, um guardanapo […] Eu tenho algumas coisas em casa ainda, dela, e até com cheiro de batom dela. Ela limpava o lábio e depois punha na bolsa […] de repente, ela escrevia uma anotação. Depois de coletar todos estes fragmentos, comecei a perceber, comecei a numerar. Então, não é difícil estruturar Clarice, ou é infinitamente difícil, a não ser que você comungue com ela e já tenha o hábito da leitura.”

Esse manuscrito inédito de grande interesse para a obra de Clarice me foi comunicado por seu atual detentor».


* Pedro Corrêa do Lago, nascido no Rio de Janeiro em 1958, é mestre em economia pela PUC - Rio. Interessa-se por manuscritos desde os 13 anos e formou a maior coleção brasileira particular de documentos históricos e literários.

domingo, 1 de janeiro de 2012

A tocante fraqueza

É mais um dos seus pequenos livros. Grande livro. São contos. Interessa-me menos o que conta mas o modo de contar. Como é tradicional nos livros de contos, o título é o nome de um dos contos que arquiva. Não o li a esse conto. Não sei em nome de que superstição faço quase sempre assim, guardando para o fim, como quem quer terminar a refeição com a mais saborosa lembrança. Li ao calhar, sublinhei os momentos magníficos como quando «entortando as bocas, na aflição da asfixia, os peixinhos minúsculos lutavam desesperadamente pelas suas minúsculas vidas», a história da despedida, «o penoso esforço de desatar os laços dos humanos comprometimentos tantas vezes alicerçados sobre intenções mal compreendidas», o difícil adeus àquele «que, não fosse por imposição, e do mesmo modo se lhe teria devotado, tão tocante é a fraqueza dos que em nós se apoiam, e a piedade que nos inspiram, como desnorteante é o remorso de quando nos furtamos e, em consequência, ferimos e deserdamos».
Elisa Lispector escreveu A Despedida. O livro Inventário, publicado em 1977, pela Rocco, no Rio de Janeiro, guardou-o para quem, sentindo-o, se reveja no já vivido, «num magoado adeus para nunca mais».

domingo, 18 de dezembro de 2011

Retratos Antigos

Será lançado em Janeiro de 2012. Chamar-se-á Retratos Antigos. Coordenado por Nádia Gotlib. «De acordo com Nádia, a obra tem como características marcantes o modo como a história da família – de trabalhadores rurais e comerciantes – é contada por Elisa, que volta a seu tempo de infância para reconstruir o passado com o filtro da maturidade. «O texto é movido por intensa e respeitosa comoção da narradora diante dos sofrimentos que levaram o pai, Pedro, a deixar a Ucrânia em direção ao Brasil», salienta Nádia Gotlib, que foi professora de literatura brasileira na USP.
Ao contrário de Clarice, a escrita de Elisa é claramente autobiográfica, mas uma biografia não da primeira pessoa mas da família. Sintoma de solidão, ela que nunca casou nem filhos teve e viveu uma vida discreta, funcionária do Ministério do Trabalho. A qualidade da sua escrita surpreendeu muitos. Hoje é a hora do resgaste. [mais, aqui]

Clarice na cabeceira

Cito da notícia que encontra no jornal A Folha, de São Paulo e que pode ser lida aqui:

Reunião de vinte textos escolhidos por convidados afeitos à obra de Clarice Lispector, este livro apresenta uma leitura selecionada de narrativas curtas publicadas entre 1962 e 1973, na revista "Senhor" e no "Jornal do Brasil", e posteriormente agrupadas nos livros "A Descoberta do Mundo" e "Para Não Esquecer".
Abordando temas tão diversos quanto as memórias da infância, a vida, a morte, o amor, o ato de escrever, o silêncio, a maternidade e a indignação, as crônicas ganham sabor especial quando apresentadas por amigos e admiradores de Clarice, que compartilham o impacto da escritora e de sua obra em suas vidas, como Eduardo Portella, Ferreira Gullar, Marília Pêra, Maria Bonomi e Naum Alves de Souza, entre outros.
Com organização de Teresa Montero, a obra é a oportunidade de conhecer "perfeitos momentos da literatura brasileira moderna, perfeitos momentos da vida nas palavras, perfeitos momentos", como descreve Caetano Veloso ao falar sobre o sentimento que a leitura de Clarice provoca».

Ilustríssima Elisa

A Ilustríssima do jornal A Folha, de São Paulo publicou um artigo, assinado por Raquel Cozer dedicado a Elisa Lispector. Pode ser encontrado aqui. Foi desse artigo que retirei a foto que orna este blog: [da esquerda para a direita] Tania, Elisa e Clarice.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Além da Fronteira, o exílio

Acabei ontem a leitura de um pequeno grande livro chamado "Além da Fronteira". É o livro de estreia de Elisa [de origem Leia] Lispector, cuja extraordinária qualidade literária ficou ofuscada pela glória de sua irmã Clarice. Livros são hoje difíceis de encontrar, salvo no "sebo", o que corresponde aos nossos alfarrabistas. Mas que a amizade do Ernane Catroli reuniu para que eu pudesse ler. Livros de que pouquíssimos falam, pelo paradoxo profundo mas sem fama de quem os escreveu.
"Além da Fronteira", editado em 1945 por José Olympio, já pelo título se pressente é um livro construído sobre a memória da sua condição de emigrante ucraniana, vinda do lugar das privações, miúda ainda, a família em demanda da subsistência. 
Mas pressente-se nele já a opressão do exílio nesse Brasil, terra de futuro [para retomar o que foi o título de um controverso livro de Stefan Zweig, que tantos dissabores lhe causou e que no Brasil encontrou, afinal, a terra do seu suicídio] e «exílio» é a palavra que surge, quase a findar a obra, quando Sérgio, personagem central da narrativa, inicia a sua viagem final e sente na boca «a amarga sensação de exílio». E "Exílio" é título do seu livro seguinte, já de cunho mais intensamente auto-biográfico. E é nomenclatura no contexto da escrita de de Albert Camus, e título também do seu magnífico "O Exílio e o Reino", cuja escrita me ocorreu tanta vez ao ler a escrita desta discreta porque esquecida autora.
O livro é um excerto da vida de Sérgio, cruzado com excertos da vida de todos os outros, incidentais, precários, como é a vida, vista em permanente «extravasamento da perplexidade», escrita nómada por quem se pressente revista constantemente na pergunta «por que você não volta para a sua terra, se não consegue deitar raízes por aqui?».
Traçado em breves capítulos, há no desenrolar da narrativa um crescendo que, imperceptível, se apossa do leitor e torna a leitura difícil, pois em cada página, por vezes em cada parágrafo, se adensam os sentimentos como um corpo que se encharcasse por uma chuvada fria e dolorosa. Por isso levei semanas a ler, interpoladamente, estas 102 páginas, impressas em oitavo.
A grandiosidade surge no quase final, Sérgio a apartar-se do navio, a que já não voltará mais, o navio da viagem esperançosa e a ficar-se, só ante os homens mas presente, enfim, ante o ventre matricial da Terra, recebido e a entregar-se. São duas páginas em que o enraizamento se vai dando pelo entorpecimento primeiro do conhecimento, a perda sucessiva da sensação, a assimilação, enfim, do corpo e da mente «a essa espécie de paz interior e profunda», até que, deitado, os olhos visando os céus, os braços em cruz, «o seu dorso era o dorso da terra, e o espírito bom da terra o havia penetrado até ao fim», um fim que é o surgir de uma «vida com um sentido próprio, sem noção de tempo, local ou circunstâncias», porque «integrando-se numa ordem que o conciliava com a vida, com os homens, com Deus».
Como dizer-se que é a sua morte quando é o momento apenas da sua vida eterna, o ciclo do que existe a renovar-se, como a de Paulo no sanatório, e a sua noite, noite simbólica de inferno e desolação, «a noite, ora transformada numa nau fantasmagórica, parece oscilar no tempo (...)» em que «o navio do tempo parece avançar e retroceder entre o presente e o passado, até confundir tudo numa alucinação de pesadelo».
Sempre o navio e sua viagem, como o navio dos mortos, rumo de emigrados, «gente amontoada sobre gente, e o odor de carne, de suor, de humanidade».
«O amanhã é o partir do momento em que o esperamos». Assim se cumpre a circunferência da vida e com ela o círculo e na totalidade do mesmo a esfera. Eis a geometria sagrada deste livro que é uma oração murmurada à existência.
«É preciso ter coragem para ser feliz». Assim para Dolores, para Helena, para a tia Nelly, para quantos são a alma deste corpo em livro, para quem o lê e nele se irmana, a comunhão dos seres.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Muro de Pedras

Tinha guardado, tão gulosamente como miúdo que olha contristado para o fundo do prato do seu doce predilecto e estica o tempo em que terminará o prazer de ter estado contente, as últimas folhas do livro "O Muro de Pedras" de Elisa Lispector, irmã de Clarice.
E já escrevi aqui do espanto, do sublime que foi a leitura, de um livro que é uma busca de amor que contém, afinal, a busca de Deus. 
Usando o pseudónimo de "Congonhas", de sabor caricato para a nossa pituitária fonética, foi a primeira vencedora do prémio Lins do Rego.
Talvez, nesta noite pungente, me faça companhia a frase «fazendo-se sofrer, ela se dava razão contra quem lhe infligia sofrimento» e se isto fosse um poema de amor e não uma nota breve de uma leitura extensa eu te diria que a nenhum mundo consentiria existência se dele houvesse sol ou lua que não fosse a escaldante alegria e a nocturna brisa do riso.
Retirei-a do livro, a frase, e a memória já vaga do que fui lendo, ficou, como a descrição de um lugar em que não sabemos dizer como era mas dizemos tudo dizendo «e é tão bom».
Agora sim, pronto para todos os seus livros, que venham do sebo, assim os consiga, guardarei este na estante, amavelmente com a promessa «não me nunca esquecerei de ti» porque não se esquece de quem nos faz feliz.

domingo, 7 de agosto de 2011

O ser incontido

Tenho-a ainda não totalmente lida a biografia que dela escreveu Benjamim Moser, e a foto-biografia e tantos dos seus livros quase todos e soube agora que havia as cartas para as irmãs e de uma das irmãs comecei a ler em êxtase os livros de Elisa, e nesta manhã surgiu esta homenagem que é ela presente aqui em pessoa e, afinal, mas onde está tudo quanto lhe sobeja e a define, esse mundo sem limites no infinito na indefinição, incontida e total?

A potência da perversidade

Só quem, não tendo com que chegar a eles, nunca viveu a ânsia e o desejo de os ter, não entende. Só quem não viveu a vida como se ela fosse a menina chupando "balas" doces precisando de que soframos pelos livros que há, «as olheiras se cavando sobre os olhos espantados», o mundo por ler.
A narrativa é de uma beleza que dói: «Eu própria me transformei na esperança da alegria». Em livro.